A Escola-Oficina, virá provavelmente pela primeira vez, capitular o acervo documental e por ventura exigir a criação de documentação, desenhos, esquemas, receitas, que até hoje ainda são um saber oral que importa documentar. Este será, sem dúvida, um resultado importante no corolário do projecto. Actualmente a documentação existente sobre a construção de embarcações tradicionais, é dispersa, incompleta e contraditória. O projecto poderá dar um forte contributo no sentido de se produzir documentação mais completa, coerente e compilada, de modo a constituir uma referência nesta matéria.


A promoção das embarcações tradicionais, para fins turísticos, para as instituições, para as empresas, para as autarquias, para as actividades lúdicas, etc., constituirá uma. que a Escola pretende promover, procurando a criação de um mercado de embarcações que se supõe crescente nos próximos anos. Por exemplo, com toda a certeza, alguns dos veraneantes, de entre os milhares que frequentam a Ria, durante a época de Verão, em lugar de um barco de fibra de vidro para a pesca, poderiam preferir uma pequena Bateira tradicional de madeira, nem por isso mais cara, só que estas não estão à venda no mercado de um modo fácil.

A Escola-Oficina, poderá também ser motivo de aperfeiçoamento e mesmo de introdução de pequenas inovações, nos métodos tradicionais, sem que isso possa desrespeitar a construção tradicional, mas dando-Ihe melhores características, por exemplo no tratamento das madeiras, conferindo-1he melhor durabilidade, ou num pequeno pormenor construtivo que agora é exigido para respeito das normas internacionais se segurança.


Potenciar a qualificação de activos e proporcionar instrumentos de riqueza e criação de postos de trabalho, é um contributo muito positivo para o desenvolvimento local. Zonas de menor desenvolvimento económico, como é o caso da Murtosa, em particular da sua zona ribeirinha, podem receber um contributo muito positivo com acções destes tipo, esperando-se até um efeito multiplicador nos resultados a médio prazo de um projecto deste tipo.


As técnicas tradicionais, são um saber e uma cultura populares que importa manter e potenciar numa sociedade moderna. Preservar os valores da sua história e deles tirar uma mais valia permanente para o desenvolvimento das suas populações, é tarefa importante, podendo até constituir factor de criação de riqueza e emprego.

As Escolas-Oficina, vieram possibilitar a transmissão destes saberes, que de outro modo se teriam tornado efémeros, dando oportunidade de, pela via da aprendizagem teórica e prática, novos artesãos poderem dar continuidade a estas artes ancestrais e porventura realizar a sua carreira profissional, o seu próprio emprego e muitas vezes outros postos de trabalho para terceiros.

O artesanato e as artes tradicionais, são hoje, nas sociedades desenvolvidas factores importantes na criação de posto de trabalho e riqueza, potenciando ao mesmo tempo a desejada preservação das artes e técnicas tradicionais.

O projecto que se propõe, representa um importante contributo, por ventura vital, na preservação de técnicas ancestrais de construção de embarcações tradicionais da Ria de Aveiro. Esta é uma arte, que transmitida de geração em geração, não encontra hoje seguidores nas gerações mais jovens, identificando-se razões de dificuldade no acesso à aprendizagem dada a grande especificidade técnica e mestria que a arte exige.

A região da Murtosa, cuja população está fortemente relacionada com as actividades da Ria, revela índices de empregabilidade preocupantes, pelo que o ressurgimento de "antigas profissões" poderão constituir "novas profissões" pela valorização das tradições a que assistimos hoje em dia.

A "Associação dos Amigos da Ria e do Barco Moliceiro", num esforço voluntarista, tendo aberto um estaleiro tradicional, recrutado antigos "mestres carpinteiros navais" para o desenvolvimento da sua actividade, tem vindo a fazer um grande investimento de preservação destas artes, contando como apoio incondicional de várias entidades oficiais e particulares.

Várias embarcações tradicionais foram recuperadas e construídas neste estaleiro nestes últimos dois anos de actividade, registando-se vários pedidos de outros trabalhos numa demonstração clara de um mercado que poderá sustentar novos postos de trabalho. Espera-se que este projecto venha a proporcionar o relançamento definitivo da actividade na região.

O projecto da Escola-Oficina "Estaleiro de Construção de Embarcações Tradicionais da Ria", é desenvolvido pela Associação dos Amigos da Ria e do Barco Moliceiro, tendo em vista o alcançar de um conjunto de objectivos que se integram e complementam entre si.

Desde logo, importa com este projecto, potenciar a aprendizagem de uma arte tradicional, que se encontra em risco de ser perdida, por manifesta falta de aprendizagem no oficio de "mestre carpinteiro naval" de embarcações tradicionais da Ria. De facto, a transmissão do saber entre gerações, ou de mestres para a aprendizes, teve a sua interrupção nesta arte, nas últimas duas gerações, provavelmente motivada pela emigração, pelo declínio das actividades económicas tradicionais na Ria, pela preferência de emprego nos sectores terciários ou na indústria, pela busca de melhores rendimentos que a Ria deixou de proporcionar.

Importa também revelar o papel que o projecto da Escola-Oficina que se propõe, pode ter num contributo muito positivo para o mercado social de emprego na região da Murtosa. Face à evolução positiva que se antevê na actividade de construção e manutenção de embarcações tradicionais, prevendo-se fortes possibilidades de gerar riqueza e novos postos de trabalho, a qualificação de "carpinteiros navais" para embarcações tradicionais da Ria, é tarefa fundamental para que esta actividade seja injectada de novos profissionais, qualificados, que possam nela desenvolver a sua carreira com rendimentos atraentes, quem sabe, criar o auto emprego ou mesmo pequenas unidades empresariais, também elas empregadoras. Esse é um resultado que importa estimular ao longo de toda a acção, através de formação específica e da motivação dos formandos da escola.

É um garante do potencial de crescimento que um projecto deste tipo pode esperar. A Escola Oficina, virá sem dúvida relançar uma actividade tradicional, não deixando perder os saberes dos poucos "velhos" mestres carpinteiros que ainda podem ensinar como se faz uma embarcação tradicional.

As parceiras institucionais, quer com Autarquias, quer com outras instituições Públicas e/ou Particulares, no contexto do projecto da Escola-Oficina, serão uma vontade que a Associação promotora do projecto pretende manifestar e realizar, de modo a envolver a opinião pública e as instituições na iniciativa, mobilizando todos os apoios possíveis que possam garantir o sucesso de actividades pós-projecto, criando riqueza e emprego, contribuindo de forma decisiva para o desenvolvimento local.

Este será com certeza o re-iniciar de uma "velha" actividade, a arte de construir embarcações da Ria em madeira, uma "nova" economia com "novas" profissões.