A Ria, foi na região lagunar do rio Vouga, desde há séculos, uma fonte inesgotável de riqueza, proporcionando aos habitantes ribeirinhos, formas de vida muitas vezes sustentadas pelo produto das suas águas ou das actividades que ali se desenvolveram.

Eram formas de vida tão diversificadas como a apanha do moliço, a pesca artesanal, a extracção do sal, o transporte de mercadorias, entre muitas outras. Foram tarefas que permitiram ao longo dos tempos a criação de riqueza e o sustento de muitas gerações de familias ribeirinhas desta região lagunar.

Ainda hoje, os altos e baixos das actividades económicas ligadas com a Ria e com o Mar, reflectem-se de forma preponderante no tecido social das populações abrangidas por esta bacia de água. A crise do bacalhau e da pesca longínqua em geral, a crise na pesca costeira, o declínio de muitas actividades tradicionais da Ria tiveram efeitos, que nestes últimos anos trouxeram preocupações e dificuldades a muitas familias nas populações ribeirinhas.

A diversificação do tecido económico e a agilidade de uma base empresarial assente nas pequenas e médias empresas, associada a uma agricultura de subsistência e às remessas de emigração, minoraram ainda assim os efeitos muito negativos que o declínio das actividades lagunares e marítimas tiveram na região.

A Murtosa em especial, é uma das regiões ribeirinhas em que a crise sócio profissional mais se fez sentir. Por uma lado, é possuidora de um tecido empresarial fraco, por outro uma forte emigração da mão de obra mais qualificada, fizeram com que esta região, nos últimos anos, pudesse conhecer os mais baixos indices de desenvolvimento concelhios, de um dos distritos mais desenvolvidos do País. As soluções, vão sendo criadas pela própria população, pelas autoridades locais e nacionais que estão, de facto, a fazer um esforço meritório no estímulo ao desenvolvimento de actividades económicas diversificadas, com a consequente criação de emprego e riqueza local.

A Associação dos Amigos da Ria e do Barco Moliceiro, mercê do seu conhecimento e envolvimento na dinamização das actividades e artes tradicionais, acredita e tem dado provas, que é possivel desenvolver novas actividades económicas em torno das tradições da Ria, utilizando muitos dos costumes antigos, do saber popular, dos utensílios e embarcações tradicionais, mas provavelmente direccionados para novas funções, como o turismo, as industrias da cultura e do lazer.

A região da Murtosa, cuja população está fortemente relacionada com as actividades da Ria, revela índices de empregabilidade preocupantes, pelo que o ressurgimento de "antigas profissões" poderão constituir "novas profissões" pela valorização das tradições a que assistimos hoje em dia.

A "Associação dos Amigos da Ria e do Barco Moliceiro", num esforço voluntarista, tendo iniciado a criação de um estaleiro escola de embarcações tradicionais, recrutado antigos "mestres carpinteiros navais" para o desenvolvimento da sua actividade, tem vindo a fazer um grande investimento de preservação destas artes. Este estaleiro entrou numa fase de consolidação no seu desenvolvimento, com a aprovação de um projecto "Escola-Oficina" apoiado tecnicamente e financeiramente pelo IEFP, contando ainda como apoio incondicional de várias entidades oficiais e particulares da região. Várias embarcações tradicionais foram recuperadas e construídas neste estaleiro nestes últimos três anos de actividade, registando-se vários pedidos de outros novos trabalhos, numa demonstração clara de que existe um mercado que poderá sustentar novos postos de trabalho. Espera-se que o projecto da "Escola Oficina" em curso, venha a proporcionar o relançamento definitivo da actividade na região, não apenas da construção de embarcações mas de muitas outras actividades a jusante sejam elas tradicionais ou novas funções na Ria.

O mercado social de emprego, é um projecto colectivo que responsabiliza todos os agentes do desenvolvimento para a realização de acções concretas que possam servir os objectivos deste grande programa. Ao nível local, as parcerias desenvolvidas entre as entidades de uma comunidade, sejam elas públicas ou particulares, para a resolução dos problemas sócio-profissionais, em especial de integração ou reintegração de activos, é uma tarefa difícil que compete a todos os que se sentem responsáveis pelo desenvolvimento local. É esse o desafio que a Associação dos Amigos da Ria e do Barco Moliceiro se propõe desenvolver em conjunto com os seus parceiros locais. A bem da Murtosa, do Barco Moliceiro e de toda a Ria de Aveiro.

Os barcos tradicionais da Ria, têm especificidades de construção muito próprias, por um lado as funções para que eram destinados, por outro o facto de navegabilidade na Ria ser dificil para embarcações com calado normal. Por isso ao longo do tempo, as embarcações foram-se tornando especificas desta região, adaptando-se às funções para que eram destinadas e à especificidade da navegabilidade na Ria, em especial o calado reduzido.

Importa tambem salientar que na região da ria, entre as espécies de árvores que podem fornecer a matéria prima para a construção das embarcações. O pinheiro, teria sido a espécie endógena mais abundante e cujas propriedades da madeira, nomeadamente o seu comportamento em ambiente húmido, seria mais adequado ao fabrico destas embarcações. Os estaleiros de construção de embarcações, tradicionais da Ria, foram por isso desenvolvendo a sua actividade, com base em unidades familiares de construção, que muitas vezes, era um complemento à actividade principal, a agricultura ou por vezes a pesca. O estilo próprio de cada tipo de embarcação foi sendo desenhado ao longo dos tempos, pouco evoluindo e mantendo a sua traça tradicional por muitas gerações.

Hoje em dia, apenas se conhecem três "mestres carpinteiros navais" que conhecem a arte de construção do barco tradicional da Ria, todos eles de idade avançada e que apenas mantêm a actividade fruto de pedidos de amigos ou entidades que lhes vão dando algumas tarefas de restauro de embarcações, excepção feita no verão de 1998 em que dois "bota abaixo" deram lugar a duas novas embarcações e em 1999 quatro outros. Alguns destes frutos do trabalho do Estaleiro Escola desta Associação e do projecto Escola-Oficina que nele se desenvolveu nos anos de 1999/2000.

No entanto, em qualquer dos casos, nenhum destes mestres desempenha esta actividade como profissão principal, consequência do declínio que este tipo de embarcações conheceu durante as últimas décadas. Também em nenhum dos casos se conhece a transmissão da arte a descendentes, ou outros aprendizes que de algum modo possam continuar a transmitir o "saber popular" que a construção de embarcações tradicionais da Ria envolve.

Assim, assistimos a um declínio eminente na construção de embarcações, e considerando a idade avançada dos mestres que ainda hoje detêm o saber da arte da construção deste tipo de embarcações, era urgente que se pudessem tomar medidas de preservação deste saber, transmitindo-o a novos "mestres carpinteiros navais" que quiseram fomentar e exercer esta actividade, agora que se antevê um ressurgimento das embarcações tradicionais nas "novas funções" da Ria.

O projecto da Escola Oficina que se está a desenvolver na Associação deverá ser um contributo fundamental para que este património cultural não se perca, esperando-se que possa depois desenvolver actividades profissionais criadoras de riqueza e postos de trabalho, como se pretende com este projecto.

O projecto de uma empresa de inserção, vem naturalmente, na sequência de toda a actividade da Escola-Oficina que se desenvolveu durante este último ano no Estaleiro da Associação. De facto, olhar para a actividade que ali se desenvolveu de um ponto de vista empresarial não é difícil e rápidamente suscita vontades em todos aqueles que participaram e dirigiram a Escola Oficina.

Mas mais do que isso, face à evolução do mercado envolvente, acredita-se que estas artes, podem de facto traduzir-se em áctividade económica só por si, justificando por isso uma dinâmica empresarial autónoma. E é aqui que volta a entrar a Associação, enquanto agente motivador do desenvolvimento. De facto, ao nível a que a formação decorreu e de entre os formandos que terão aprovação final, não será fácil encontrar autonomia suficiente para desenvolver o projecto de modo autónomo. A Associação possui o estaleiro, as máquinas, a secretaria, telefones e fax e copiador, que com mais alguns "ajustes" seriam os meios ideais para lançar esta actividade de forma empresarial.

Por isso mesmo em Assembleia Geral Extraordinária, conforme acta anexa, a Associação reuniu os seus associados, e numa discussão animada, amplamente partilhada mas consensual, foi deliberado que a Associação iria assumir o compromisso da Empresa de Inserção, considerando e primeiro lugar candidatos da Escola Oficina, promovendo o seu emprego e promovendo a construção dos barcos tradicionais da Ria. Esta Assembleia reflectiu com profundidade as responsabilidades do projecto, mas foi unânime a opinião optimista de que este é um mercado que poderá sustentar os postos de trabalho a criar.

Tomada a decisão, foram feitos estudos para a candidatura que agora se apresenta, em especial todos os elementos que poderiam instruir o estudo económico e financeiro de viabilidade assim como o Plano de Investimentos mínimo para que a ETRIA pudesse funcionar. Há que adquirir mais algumas máquinas, de forma a melhorar o rendimento de produção do estaleiro, em especial na preparação e acabamento de peças, na pintura e no trabalho de metal, onde as ferramentas até agora utilizadas, sendo rudimentares, não permitem um trabalho eficaz. Também se considerou fundamental a criação de uma sala de desenho, equipada com estirador e meios informáticos mínimos para se poder desenvolver o trabalho de projecto e desenho do estaleiro, tarefa essencial para o licenciamento, orçamentação, construção e adaptação dos barcos. Também ao níve1 dos meios de transporte, considera-se essencial uma viatura de transporte de carga de materiais para apoio ao estaleiro, de facto existe hoje muita dependência de boas vontades de Associados que com viaturas particulares fazem a carga de materiais essenciais ao funcionamento do estaleiro, por vezes quando isso não é possível, há que pagar fretes de transporte que se tornam muito onerosos. Considerou-se ainda essencia1 investir na instalação eléctrica da area do estaleiro, de facto a instalação existente, não cumpre as normas regulamentares, está sub-dimensionada e necessita de equipamento de corte e protecção, a iluminação não é adequada nem protegida.

Junto dos formandos, foi possível auscultar algum entusiasmo na criação deste novo projecto. Ainda que nem todos venham a ser contratados pela empresa, numa fase inicial, este projecto é já motivo de satisfação e entusiasmo para aqueles que reconhecem que deste modo haverá maior possibilidade de emprego no fim da acção. Acredita-se também que outros estaleiros tradicionais da região, até aqui pouco activos, possam vir a ser reactivados e venham eles próprios a criar emprego para outros formandos.

O funcionamento da ETRIA será autonomizado do ponto de vista administrativo e financeiro das restantes actividades da Associação. Esta é uma gestão que não será dificil à Associação fazer, pois os seus diferentes núcleos e projectos já são geridos deste modo.

Estamos num momento onde as embarcações tradicionais da Ria, têm revelado um ressurgimento. Certamente para cumprir novas funções mais ligadas, com os passeios Turísticos, com as actividades lúdicas associativas, com a pesca desportiva, com os convivios de grupos organizados e excursões, em qualquer caso assistimos ao relançamento de actividades económicas na Ria, que vão, com toda a certeza sustentar um novo mercado de construção de embarcações tradicionais, criando riqueza, criando novos empregos nesta actividade.

Fruto de algumas experiências vividas pelos operadores, é curioso salientar, e até fácil de compreender, que um turista confrontado com a possibilidade de viajar num passeio turistico na Ria, numa embarcação moderna de fibra e bancos almofadados, ou numa embarcação tradicional de madeira, invariavelmente prefere a segunda alternativa, fazendo uma demonstração clara do valor acrescentado que este tipo de embarcações pode trazer a estas novas actividades económicas na Ria.

Não menos importante, é o esforço de preservação do parque de embarcações existente que se vem fazendo entre particulares e entidades oficiais.

Também aqui, porque uma embarcação de madeira requer cuidados anuais e permanentes, o volume de trabalho associado à manutenção e ao restauro de embarcações, quer com o parque actual quer com o aumento que se pode antever pelas tendências mais recentes, importa considerar este importante filão de actividade que irá também gerar postos de trabalho em número significativo.

Por tudo isto, numa perspectiva optimista de que o mercado das embarcações tradicionais vai de facto ressurgir e crescer nestas novas funções, a Associação quer desenvolver o projecto desta Empresa de Inserção.